Você pode ler esse texto ao som de Willie Nelson - She is Gone.
Eram exatas 15h da tarde quando ela jogou as roupas por cima da mala cor de rosa, a mesma que ela fez questão de comprar em nossa última viagem ao Rio. Virou-se pra mim e disse: desculpa, mas acabou. É. Ela se foi.

“Desculpa, mas acabou"? Quando foi que acabou que eu ainda sinto aqui? Essas palavras ecoaram no meu peito e foi como se uma faca cortasse cada centímetro dos meus órgãos aqui dentro, talvez pior que isso.

Já não me lembro quando foi que eu a deixei invadir meu espaço e abri mão do lado da parede da cama só porque ela se sentia segura lá. Já não lembro quantos risos ela trouxe para a minha vida tosca ou quantos olhares disseram tudo, mesmo não proferindo uma palavra da boca dela. Sei que ela me mudou. Ela trouxe paz, onde só havia caos. 

Eu sei, a vida é feita de amores, mas existem alguns, raros, que se tornam especiais e que a gente nunca acha que vai acabar até que, pronto, acaba. Ela era esse tipo de amor que eu queria ter por perto e tive. Só não esperava perder. Sei também que esse corte aqui dentro vai cicatrizar, com o tempo, as lágrimas vão secar e alguém especial vai aparecer. Sempre aparece. Mas, por enquanto, tá machucando... Ela acabou de bater a porta e esse som não sai da minha cabeça. 

Faz duas horas que ela se foi e, juro, está parecendo uma eternidade. Tá difícil olhar pra parede - roxa - que ela insistiu em pintar e não lembrar de tudo o que vivemos. Fazia tempo que essa casa não abrigava tanto silêncio. Não tive tempo para despedidas, nem pude sentir o calor dela pela última vez.

É. Ela se foi. Deixou muito mais do que levou. E agora é hora de aceitar e aprender a viver com a sua ausência. Dói, mas passa. Só espero que ela saiba muito bem o que fez, pra não voltar atrás. Porque, querida, não tenho intenção alguma de mexer com ferida cicatrizada.